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Nutrição

BCAA antes ou depois do treino: o que a ciência diz

BCAA funciona melhor antes ou depois do treino? A ciência mostra que o horário importa menos que a dose diária e a constância.

Por André N

Depois do whey protein e da creatina, o BCAA é um dos suplementos mais presentes na rotina de quem treina pesado. A parte prática vem sempre acompanhada da mesma pergunta: existe um momento certo para tomar? Antes de puxar ferro, depois, durante o treino? A resposta curta é que o relógio pesa menos do que a maioria imagina — mas alguns detalhes fazem diferença de verdade.

O que é o BCAA

A sigla vem do inglês branched-chain amino acids, ou aminoácidos de cadeia ramificada. O nome descreve a própria estrutura química desses três aminoácidos essenciais, que carregam uma ramificação na cadeia:

  • Leucina
  • Isoleucina
  • Valina

Você encontra o suplemento em cápsulas ou em pó, este último dissolvido em qualquer líquido antes do consumo. A formulação mais comum segue a proporção 2:1:1 — o dobro de leucina em relação à isoleucina e à valina. Essa preferência pela leucina não é aleatória: entre todos os aminoácidos, ela é a que mais estimula a síntese proteica e freia a degradação do tecido muscular.

Outro ponto que diferencia os BCAAs dos demais aminoácidos é a rota de absorção. Em vez de passarem primeiro pelo fígado para serem metabolizados, seguem direto para a musculatura. Na prática, chegam rápido onde precisam agir.

Vale um alerta honesto: a literatura ainda é dividida sobre se o BCAA em cápsula ou pó supera fontes clássicas de proteína, como o whey e alimentos ricos em proteína — que, aliás, também são carregados de BCAAs. O que se pode afirmar com segurança é que o suplemento oferece uma forma portátil e prática de consumir esses aminoácidos específicos.

Como o BCAA atua em quem treina

As evidências disponíveis apontam ao menos cinco frentes em que a suplementação pode beneficiar o praticante de musculação:

  • Menos fadiga no treino. Concentrações elevadas de BCAA no sangue reduzem a entrada de triptofano no cérebro. Como o triptofano é matéria-prima para a serotonina, ligada indiretamente à sensação de cansaço, o efeito acaba sendo protetor contra a fadiga.
  • Menos dano e dor muscular. O treino resistido lesiona fibras musculares e gera inflamação. Os BCAAs ajudam a atenuar a dor associada a esse processo.
  • Mais estímulo ao crescimento. Além de acionar a síntese de proteína, os BCAAs inibem a quebra de tecido muscular após o esforço.
  • Energia de reserva. Em exercícios longos, quando a glicose — combustível principal do músculo — começa a faltar, os BCAAs podem ser recrutados como fonte alternativa.
  • Suporte ao sistema imunológico. Treinos intensos derrubam a imunidade, em parte pela queda da glutamina, um combustível das células de defesa. Os músculos convertem BCAAs em glutamina com facilidade.

Pré ou pós-treino: o que os estudos realmente mostram

Aqui está o cerne da dúvida. E a verdade é que existem poucos trabalhos comparando o efeito do BCAA (ou da proteína em pó) conforme o horário de consumo.

Um pequeno estudo preliminar avaliou justamente o antes contra o depois. Os participantes ingeriram 10 gramas de BCAA antes de um exercício resistido para os braços e apresentaram menos dor muscular e menor presença de marcadores de dano nas fibras.

Em outra investigação, os voluntários receberam 25 g de whey protein — que contêm cerca de 5,5 g de BCAAs — antes e depois do treino, ao longo de 10 semanas. O detalhe revelador: tanto o grupo que tomou o whey quanto o que não tomou obtiveram os mesmos ganhos de força e massa muscular.

Juntando o que há, não dá para cravar que tomar BCAA antes seja melhor que depois, nem o contrário.

E a tal janela anabólica?

Circulou por muito tempo a ideia de que a proteína (e os BCAAs) precisava ser ingerida em uma janela de 45 a 60 minutos após o treino, sob pena de perder o efeito. Estudos mais recentes derrubam esse prazo apertado: a janela anabólica é bem mais larga, podendo passar de 5 horas.

Há ainda um fator que dilui de vez a urgência do cronômetro. Se você fez uma refeição rica em proteína 1 a 2 horas antes de treinar, ainda estará digerindo esse alimento no pós-treino — e o horário exato do BCAA depois do exercício perde relevância. Ou seja, com uma boa refeição pré-treino no radar, tanto faz encaixar o suplemento antes ou depois.

Tomar BCAA durante o treino

Os únicos dados sobre o uso durante o esforço vêm de atletas de resistência, como corredores e ciclistas — não de quem faz musculação.

Em um estudo, 193 maratonistas consumiram 16 g de BCAA ao longo da prova e não colheram benefício algum em relação a quem não usou. Com ciclistas, o resultado foi parecido: nenhuma melhora de desempenho ao incluir o suplemento durante o exercício, embora tenha havido um efeito positivo sobre a fadiga mental.

O que de fato decide o resultado

Se o horário importa pouco, o que importa? Pesquisas recentes identificaram três fatores que pesam de verdade na hora de limitar o dano muscular com BCAA.

Dose. É preciso atingir pelo menos 200 mg por quilo de peso corporal por dia. Um praticante de 75 kg, portanto, precisaria de 15 g (15.000 mg) diários para colher os benefícios.

Constância. O efeito só aparece no uso prolongado, acima de 10 dias. E isso significa tomar todos os dias — inclusive nas datas sem treino.

Frequência. A distribuição da dose ao longo do dia parece contar. Fracionar o total entre pré e pós-treino, por exemplo, tende a ser mais eficiente do que concentrar tudo de uma vez.

Um último lembrete: BCAA sozinho não constrói músculo. Existem outros seis aminoácidos essenciais que só chegam pela alimentação, e sem eles não há hipertrofia. Manter uma dieta com boas fontes de aminoácidos é parte não negociável do resultado.

Resumo prático

Os BCAAs oferecem um efeito protetor sobre a massa muscular de maneira conveniente — cabem na bolsa e se preparam em segundos. Ainda assim, boa parte dos estudos questiona se levam vantagem sobre alimentos ricos em proteína, que também são fontes generosas desses aminoácidos.

Sobre o momento de tomar: as comparações diretas entre antes e depois do treino são escassas, e o que existe indica efeito igualmente positivo nas duas situações. Não há por que cronometrar. Consumir o suplemento em algum ponto antes e/ou depois do treino, dentro de uma alimentação adequada, é o suficiente para o corpo aproveitá-lo.

O que realmente move o ponteiro é acertar a dose pelo seu peso, manter o uso por tempo suficiente para que as mudanças apareçam e não abandonar o consumo nos dias de descanso.

Referências

  • Nutraceutical Effects of Branched-Chain Amino Acids on Skeletal Muscle. 2006 Feb;136(2):529S-532S.
  • Branched-chain Amino Acids and Muscle Protein Synthesis in Humans: Myth or Reality? 2017 Aug 22;14:30
  • Physical Exercise-Induced Fatigue: The Role of Serotonergic and Dopaminergic Systems. 2017 Oct 19;50(12):e6432.
  • Is Branched-Chain Amino Acids Supplementation an Efficient Nutritional Strategy to Alleviate Skeletal Muscle Damage? A Systematic Review. 2017 Sep 21;9(10):1047.
  • Branched Chain Amino Acids: Beyond Nutrition Metabolism. 2018 Mar 23;19(4):954.
  • Protein Blend Ingestion Following Resistance Exercise Promotes Human Muscle Protein Synthesis. 2013 Apr;143(4):410-6.
  • Branched-Chain Amino Acids Are the Primary Limiting Amino Acids in the Diets of Endurance-Trained Men After a Bout of Prolonged Exercise. 2018 Jun 1;148(6):925-931.
  • Branched-chain Amino Acid Supplementation Does Not Enhance Athletic Performance but Affects Muscle Recovery and the Immune System. 2008 Sep;48(3):347-51.